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- jessicafilipasantos

- há 16 minutos
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Doeu tanto que eu quis voltar a escrever. Mas doeu tanto, que não fui sequer capaz de pegar no lápis.
As palavras desvaneceram quando me viram sentar com o abismo que agora ocupa o lugar que era teu.
O choro tomou a vez do sono – mas também quem poderia dormir quando a nossa pessoa saiu porta fora? - e as semanas passaram, completamente vazias.
A cabeça não tem descanso, não realmente e a ansiedade voltou, como uma velha amiga.
Costumavas ser o meu porto de abrigo, hoje és o silencio que mais me dói.
E agora respirar requer mais força do que conseguiria explicar, é desconcertante.
É engraçado como costumavas dizer que eu era uma casa cheia. Hoje nesta casca só mora o meu fantasma.
Acreditei no amor e sonhei com uma família. Acreditei que isto era especial e que ultrapassava qualquer coisa. Agora não sei o que faça à dor que tenho no peito, ou aos sonhos que tínhamos para o resto da vida, por isso decidi escrever.
Mas escrever não chega quando ainda não sei como olhar para os pequeninos sem me desmanchar a chorar, ou sem ter medo de não ser capaz de amenizar a tua ausência.
Espero que esta tua nova realidade te complete. A minha ainda dói um pouco, por já não fazeres parte dela.
Faz-me falta saber como foi o teu dia, enquanto fazes o jantar. Contar-te os meus novos projetos, enquanto como metade da salada que deveria ter levado para a mesa. Dividir gargalhadas em momentos simples, dançar na cozinha com música que só refletia a nossa falta de talento para cantar.
Como é agora o teu final de dia? O meu é ocupado pelas corridas da Cookie e pelos poemas da Sophia, espalhados por qualquer canto da casa.
Acho que até os vizinhos sabem que te foste embora, sabes? Começaram a ocupar o lugar do teu carro. E o gatinho que lá dormia também teve de encontrar um novo abrigo.
Isto de ter alma de artista é uma bênção ou uma maldição? Porque nos meus olhos parecem já não crescer flores, mas os cadernos estão cheios de palavras que não aguentam viver dentro desta desilusão.
Escrevi com as mãos a tremer durante o último mês, até entender que não há mais nada a escrever. Ou outra mão onde a minha costumava caber.
A vida está mais silenciosa, agora que tenho de me habituar à tua ausência.
Ironia ou não, a cabeça nunca fez tanto barulho – nunca me deu tantas memórias para tentar segurar, antes que se partam, em momentos aleatoriamente difíceis.
Nunca quis que fosses um texto triste, preferia ter construído o resto da vida a teu lado.
Quem me dera que tivéssemos sabido ser um do outro.
Jéssica Filipa Santos



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